quinta-feira, 28 de agosto de 2008

3 aranhas

não vivo sozinho
moro com três aranhas
que se engalfinham no teto
sobem lá e tramam encantos
teias das entranhas
para outro inseto.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

cuerpo

quero o backstage
as internas veias
alambrados cabeceiras
as dobras marcas
covas portas
em que dobras a alma
como uma carta de amor
em formato de coração.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

quando

livro
pra quando leito
sol
pra quando vivo
bicho
pra quando grilo
cisco
pra quando vento
rua
pra quando chuva
teto
pra quando velho
pano
pra quando roupa
pouca
e muito por dentro.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

JAPERI DIRETO/CENTRAL DO BRASIL

Apesar de tudo comecei bem no negócio. Ando entre os passageiros numa boa, pedindo licença e anunciando meus produtos aos berros, pra geral me ouvir. O equilíbrio vem dos ensaios das escolas de samba, que não perco de jeito maneira. Na luta sou eu e mais dezenas de outros ambulantes, vendendo até a mãe a um real, e eu lá com meu produto da melhor qualidade, porque de mané tenho nada não. Eu sou é comerciante, empresário, escolhe aí, pra mim tá tudo certo. Fiz o segundo grau e tudo, sou burro não, mas sabe como é... Hoje o bagulho de onde eu tiro minha comida é da bala de maçã, de tamarindo, de café, de erva-cidreira, de amendoim, de menta, de iogurte, de maracujá, de melancia, do escambau. Sigo na minha entre os sanfoneiros, cegos, crentes, mendigos, malucos e malandros de merda que também circulam pela área de trabalho, o trem.

O esquema é acordar de madrugada e pegar os passageiros da manhã que vão de Japeri, Santa Cruz, Campo Grande, tudo pra Central do Brasil. O Japeri direto é que tem esquema. A dez centavos um saquinho com cinco balas vende fácil. Sem contar que pela manhã o povo sai de casa com um bafo dos infernos. É cachaça, cigarro, estômago, sujeira. Mas tem gente limpa também. E todo mundo grudadinho um no outro. Antes disso é claro que a mercadoria já tem de estar no esquema, pronta pra vender. No meu caso é comprar as balas um dia antes nas distribuidoras de doce - eu compro na loja de Pilares, já ganhei até boné e camisa de marca de bala - ensacar direitinho e prender no meu gancho, ao alcance da mão do passageiro sentado e do de pé. Na cintura minha pochete com as moedas, e é muita moeda mesmo. Fico feliz de ouvir o barulho delas.

Nas estações convém não dar mole para os seguranças, é proibido vender qualquer coisa no trem. Carrego uma sacola grande de plástico preto, de lixo, quando vejo ou sou avisado dos guardas guardo minha mercadoria na sacola. Alguns camelôs ajudam avisando, outros não. O negócio é que camelô é reconhecido em tudo que é lugar. Eu mesmo fui passar uns tempos na casa de uma meia-irmã em Petrópolis e num boteco o cara falou:

- Aí, tu não é camelô do Japeri?!

Eu falei que sim, sou eu mesmo. O cara sorriu um sorriso sem dente pra mim, eu sorri um sorriso de dente podre pra ele. É brabo. Eu sou é comerciante, empresário, mas escolhe aí, que pra mim tá tudo certo. Aliás essa irmã é por parte de pai só, que saiu da serra pra morar em uma favela aqui de baixo e acabou conhecendo minha mãe na Portela, em Madureira, onde me fabricaram.

Mas tá tudo certo, que a vida não é ruim não. A vida deve ser ruim pra quem não vive a vida. O neguinho aqui tá na briga, de estação em estação.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Lápide 1 - epitáfio para o corpo*

Aqui jaz um grande poeta
Nada deixou escrito.
Esse silêncio, acredito
são suas obras completas.

*Leminski, La vie em close

Lápide 2 - epitáfio para a alma*

aqui jaz um artista
mestre em desastres

viver
com a intesidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces

*Paulo Leminski, La vie en close

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

bola de gude

nuvem branca no dia
jóia brilhante na noite
moro numa bola de gude
deixa eu dar meu palpite:
que hoje se acenda forte
um grande amor amiúde
parido no cerne da sorte
e a todos - em muitos - ajude.

verso inteiro

um verso inteiro
jeitoso
perfeito aos olhos

de modo a te invadir
certeiro
bonito
garboso
em cheio os ossos
e o esquerdo do peito.

sem dor nem grilo
estilo no lugar
para chegar
entrar
sair
sem machucar.
um verso estelar

CONCERTO P/ FLAUTA DE CANUDO DE MAMÃO*

Vou cativar um beija-flor.
E sairemos por aí:
ele faz poesias, eu vôo.

* Que me carregue o Quintana, mas Antonio Brasileiro, em Poemas Reunidos (Entre Facas, 1970/1982) . Copiei exatamente a coisa do cara, mas não a família de letras; não sei se é garamond e/ou verdana. Que me perdoem os linotipos, mas eu tô cansado demais.

BRINDE*

Se a mente, que não é nada, mantém-se quieta
e as vozes do remorso não persistem,
eis o momento de desvendar enigmas,
de relembrar caminhos
e de tomar uns chopes com os amigos.
Pois se a mente, que não é nada, está quieta
- os enigmas mais crus, domesticados -
e o passado é um pássaro em nossa mão,
eis que o homem conhece a perfeição.
E como tudo passa tão rapidamente,
é bom brindar essas coisas com amigos.

* Antonio Brasileiro, em Poemas Reunidos (Cantar da Amiga, 1988/1996)