segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A4

uma folha branca
que já foi árvore
me planta
uma palavra
como se fosse fruto
de sua seara
tanta.

sábado, 20 de setembro de 2008

de insônia e cafeína

I

horas noturnas
encontro às escuras
sombras
peças
um desejo de noite.

dorme a nuvem na lua
segue o homem na sua
pálpebras e estrelas sem sono


II

sono leve
sem colchão
o chão é dono de quem deve
um cochilo
espia o dia chegar


III

olhos
fecham
ombros
dobram

e no peito uma folia de reis.
até as seis
pouco falta

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

alado

Providência pelas bordas:
essa fratura exposta
que brota em minhas costas
são asas de estrutura óssea.

Desse jeito me levanto
e enxergo toda a orla
sem bando na revoada
asas que de branco nada
me comandam mesmo tortas.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

trinado

um barulho alado me chamou
eu andava pelas ruas pensando em amor
nas poeiras de manuel de barros
o trinado da ave chocou meus ovos
morei nas coisas do cacaso
e nos vôos do leminski
de modo que pra mim
fica resolvido assim:
todo poeta é um pássaro.

enfim arnaldo as estruturas de aço
com flores os augustos haroldos dos campos
nesse caminho concreto de passos
que faço?

sábado, 13 de setembro de 2008

sem noção

as arestas das costas
as curvas da testa
o prazo das pernas
o mistério das dobras
os segredos dos dentes
a proposta dos pêlos
nos deixa demente:
se vai a noção
do que é indecente.

refugo/recheio

NÃO FAÇO MAIS NADA
SÓ BEBO E CHATEIO
ALUGO MEU TEMPO
ME PERCO EM PASSEIO
DISTRAÍDO NO MEIO
DO REFUGO RECHEIO
QUE ME FALTA

metaforizo

o que quer que me digam, é em português.
o amor foi dito por primeiro em aramaico.
eu esperanto que um dia acerto a pronúncia
eu fitando as línguas das moças
eu cuspindo palavras cultas de forma tosca
boboca da boca de saliva cheia
de linguagem de areia fina que avoa
pelo ar das idéias
pelo brilho dos pontos
pelos advérbios de modo
por ser tão transitivo
um dia metaforizo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

olhado

cães ladram
caravanas encalham
cipós amarram.

mas com a faca de ser você
tudo é cortado.

pro mar com o mau olhado
pra que a vida siga no sim
numa trilha de alecrim.