segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Bee Gees

Eu estava sentando com minha bituca entre os dentes e a resmungar baixinho alguma idéia que servisse para mim mesmo num futuro breve, mas a música que tocava me agradava muito, então não dei muita idéia para as minhas idéias e fiquei curtindo som. Aquele momento sublime dentro do bar fedorento poderia ficar na minha memória por um tempo, um período na detenção, por exemplo. Não sei, mas eu gostava daquela vida.

Trazia três pontos comigo num dente quebrado em uma briga covarde e mal sucedida que acontecera uma noite antes, quando passei vasto tempo sentado no espaço ridículo do posto de saúde pública aguardando atendimento, e lá não havia emergência. Saí dali. Fui beber cerveja em cima do dente infectado de palavrões e sujeira, e o vento do ventilador velho lá do teto do boteco chegava fraco, estava bom. Já no fundo a sinuca estava animada, todo mundo jogava e falava e tragava e bebia com vontade. Tudo com vontade. Eu ali só de barato, marcando tempo e ouvindo sons. Bee Gees.

Dois idiotas bebiam na mesa ao lado, e já falavam a algum tempo alto e destemperadamente. Eu observei aquilo, mas relevei pensando em não arrumar encrenca, pelo menos daquele tipo, que não rende nada. O negócio era ignorar os imbecis e ficar na minha, curtindo som. Tá tudo na mente. Bee Gees. Começaram a falar alto tão alto quanto as torres transmissoras de energia elétrica que se tornou impossível minha postura passiva dentro daquele espaço e daquela proposta. Eu tranqüilo quando cheguei, agora aquecendo os nervos tranqüilamente.

Era assobio ou o frio da morte não sei não ouvi direito, reagi de jeito maneira que acabei com a raça dos dois ali mesmo, deixei esterco moído com melado pelo chão. Quebrei por certo alguns ossos e causei alguns traumatismos interessantes para o legista do Instituto Médico legal, pra ele passar o tempo. Numa das mãos a marca dos socos certeiros que sem dúvida atingiram o eixo daqueles que altos falantes se propunham, logo em fevereiro, quando o calor incendeia a veia que conduz o sangue vermelho. Na outra um terço de reza e amor de passeio, que eu vivo não titubeio.

sábado, 15 de novembro de 2008

um grilo

eu só à janela
um grilo veio de companhia
e ele se balançava verde
quando peguei a folha branca
numa piscadela
pulou da parede e saiu voando
deixando comigo no entanto
uma calmaria franca.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

poeta

esse cara é poeta
não deixa letra sobre letra
quem sabe um dia soletra
uma idéia de veneta
e do silêncio nos liberta

deus-dará na telha
desse poeta de gaveta
cutucando redondilhas
numA4 com caneta

ou escreverá ninharia
um muxoxo perdido
o olhar carcomido
é sua real poesia.