quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

utopia

a utopia da pé
com a cabeça fria
conversando se entende
quem mente que nem sente
não entra na ciranda
nem fica contente
pula qual pererê
no meio de gente.

domingo, 13 de dezembro de 2009

astronauta

me desculpe tempo
saí pela janela e fui no vento
entender o quanto nosso clima atmosfera intento
era encanto e rima, um alumbramento
vivido num globo fechado
de nuvens e estrelas
e lá fora um cometa
aqui gotículas de ar
pores de sol,
chuvas de verão.
sereno esse planeta
e o amor desse lugar,
dirão

domingo, 6 de dezembro de 2009

curvaria

nunca vi versos
vivi-os
solares e sombrios
uns colhi ao pé
da letra
outros com fé
na caneta
alguns sem nenhum pudor
muitos frutos do amor.

não sei ser poeta
como se verso fosse reta
da curvaria do mundo
sou tradutor.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

seja

não te amarres aos mistérios
são velhos
muito menos à tristeza
ascenda, mereça
confie nos tacos
e ladrilhos
dos elos
o ladrão é você.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

um toque

quando me toca
pego fogo
nervo, músculo e osso
quando a toco
vira pétala
pele, coração e gozo

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

diadia

a poesia enfeita a lida
nada demais seria
entendê-la como esperança
compasso e esquadro
dança e contradança
jovem, velho e criança
espaço curto de tempo
e mais que breve momento.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

fora

andei uns tempos fora
de moda
da roda
que se foda
a onda é nova
todo o tempo agora
é minha hora

quinta-feira, 28 de maio de 2009

rosa

posa todo prosa
um colibri
próximo à rosa
que colori

sem ter medo

eu já disse à esse peito tóxico:
valente morre cedo
mas entumesça amores
escolha a dedo seus temores
sem ter medo.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Marilene

Nunca topei muito com Marilene, não gostava do jeito dela. E o pior é que a criatura costurou amizade com Alfredo, filho do dono do armazém onde eu trabalhava. Ao lado ficava o armarinho dela, e tudo era infestado de ratos.

Todo dia dava conta de minhas tarefas, que incluíam uma conversa desnecessária com Marilene, em assuntos que ela sempre sabia mais do que eu. Eu não sabia nada, mas ali ninguém sabia de nada. Sendo assim eu falava pelos cotovelos sobre o que lia nos jornais, e até aí mais nada também. Mas a infeliz sempre me interrompia com um ar debochado de correção, cuspindo uma frase de efeito. Um arrufo. Eu sentia vontade de lascar um tabefe na testa dela, mas claro que não chegava às vias de fato. Alfredo era esquisito, rapaz recatado que fora criado por ali, no mato. Dias de bom humor e dias de pirraça, fricote, silêncio com alguns, principalmente com quem chegava da cidade. Direcionava sua birra para alguém e mandava às favas do seu jeito. Um dia chegou me chegou, eu suado do trabalho que acabara de fazer - varrer o depósito - e abriu falácia:

- Faz assim não Raimundo. A menina tem carinho por você tonto, larga mão da cachaça, da fuzarca, abre teu olho pra ela.

Mas não se fala assim não, tanto que a cipoada voltou rápido:

- Vá para o diabo! Que mulher? Eu não tenho mulher, não quero problema.

- Olhe, a Marilene não vai te aporrinhar, vai te dar amor, vai te dar atenção, uma boa moça... Tempo passa rapaz! Gosto dela. Ela tem lá os seus trinta e poucos anos, mas isso não atrapalha o sentimento ora...

Eu disse que Alfredo era meio estranho. Era dado às falas em inglês, dizia ter feito curso em Juiz de Fora, com certificado e tudo, que ficava pendurado em seu quarto de décadas atrás. Um frascário! Eu me segurava para não desembestar em risada ali mesmo, na cara gorda dele. Ele possuía uns cacoetes como erguer as sobrancelhas para indicar que estava concentrado, e explodia sozinho em risadas quando contava alguma coisa engraçada, na cabeça estúpida dele.

- Ela é um demônio!

- O que é isso, tá vendo só, seu cavalo, você não vale nada... Meu pai tinha de lhe mandar para a rua, rua!

Ele sempre reagia assim quando eu rechaçava qualquer tipo de prosa naquele sentido. A Marilene não, aquele cheiro de roupa velha misturado com lavanda barata e forte não dava. Ela ficava a tarde inteira a saracotear naquele salão de tábuas corridas do armarinho, que apesar de pequeno era bem cuidado e sortido. Linhas, agulhas, botões, rendas, bijuteria, pequenas peças de roupa e presentes. Toda tarde eu tinha de ir até o armarinho e abaixar o toldo para que o sol não comesse a madeira encerada pela manhã, conforme um dia me ordenou um Alfredo histérico. Ela ficava sempre com aquele sorriso senil no rosto, como que a esperar alguma gracinha minha para que pudesse desancar a falar, sem freio, com emenda de assunto em outro, sempre sorrindo como um relincho de égua, e mesmo assim muito maquiada, muito mesmo. Eu, que na maioria das vezes que estava com ela só conseguia resmungar respostas animalescamente, não conseguia nem mais olhar no rosto daquela criatura do quinto dos infernos. A saliva me acumulava nos cantos e eu me sentia uma alface. Um constrangimento muito grande, eu acreditava que todo o discurso daquela madame tinha algo de doente, de pegajoso, de ruim. Eu prefiro os jornais e suas musas de promoções.

Voltava para o armazém abafado e bebia água do filtro de barro só para ter uma ação de escape. Porque se eu retornasse com passos de lesma ela vinha atrás. Uma danação, e eu metido naquilo de besta. Ela era branca com os dentes já bem amarelados pelo cigarro que fumava, sempre do lado de fora do armarinho pra não empestear o lugar. Fumava perto da entrada do armazém e começava a ladainha. As perguntas mais idiotas eu respondia, por força da educação que recebi: meu pai era professor de um ginásio em Juiz de Fora, apesar de eu ser um bicho do mato.

A verdade é que uma vez me engracei com Marilene, tudo por conta da cachaça. Encontrei a criatura em um forró promovido pela Capela de São Felisberto, padroeiro daquele fim de mundo. Ela já meio transfigurada e eu fedendo a álcool e a saco de arroz. Fui saracotear com ela perto da banda de forró que veio da cidade, e me meti entre aquelas pernas geladas e cabeludas. Ela ria, a desequilibrada, enquanto girávamos com velocidade, perigando um tombo sensacional, aquela cabeleira pixaim mal tratada voava que uma beleza. Eu estava possuído por uma boa vontade que não era minha. Havia bebido cerca de meio litro de cachaça com o Bento, caixeiro viajante que tinha família ali. E o Alfredo assistia a tudo, num canto do salão, comendo pamonha.

Nessas ocasiões, como de praxe, eu me sentia um idiota, mas a bebida me ajudava a ficar pior. Então eu representava uma alegria, uma dança sem jeito, mas com vontade, um sanhaço. A cabeça gritava e mandava tudo girar. Groselha com cachaça ficava bonito e eu bebia, bebia. O mato verde à volta ficava iluminado, parecia uma clareira enorme o lugar. Marilene nos meus braços brutos foi minha maldição.

Eu queria era fuxicar com ela, no muito, já que por aquelas paragens mulher era material escasso. Os caipiras casavam logo cedo com primas, pareciam-se todos. O Alfredo vinha de uma família assim, todo mundo ria alto, mas era baixo. No troco daquela canalha um filho diferente e mais alto, quando muito. Tios, primas, cunhados, irmãos, todos com a mesma fuça naquele lugar que estranho era visto de longe. Minha família não era dali, fui parar ali de trem, à procura de dinheiro, qualquer que fosse, e de paz para meus demônios.

Ela me apertava e aproximava aquela boca entupida de dentes amarelos, segurado meu rosto entre as mãos de unhas vermelhas e os cabelos de fogo por todo o lugar, e eu naquele transe ordinário e estupidamente feliz. Não me dava conta de nada, rodava com ela rumo ao chão, também apertava aquela cintura de panos amarrados uns por cima dos outros, tentando desvendar o que havia por ali. Eu sabia bem e a idéia não me agradava de todo, mas o caboclo tem horas que não pensa não. Para mim Marilene não gostava muito de água, visto o jeito excessivo da maquiagem de mulher da cidade. Mas o que eu podia fazer? Era o que Deus me reservava naquele momento e eu ia desgovernado, na cachaça e em Marilene. Foi inevitável.

Alfredo se aproximou de nós com a aparência da pamonha que acabara de comer e disse que iria pegar o mato, por que já era tarde e queria acordar cedo no dia seguinte para caçar rãs. Rosnei alguma coisa e olhei para Marilene, que se despediu dele com um aceno idiota e um olhar de quem sabia o que estava fazendo. Aquilo não era muito bom, na medida em que dali por adiante Marilene estava comigo, a dama de companhia dela estava indo embora com cara de pamonha. Já não havia muita gente mesmo, e a responsabilidade de levá-la em casa era um fardo mais pesado que um saco de arroz.

Ela dançava a minha volta e por vezes perdia o equilíbrio. Aí eu a agarrava e rodava com força, no compasso do triângulo. A noite estava em iluminada, mas o mato era denso no caminho de volta. Eu já estava acostumado a andar descalço por aqueles caminhos, na maioria das vezes sozinho.

Deu a hora, levei-a para casa. Uma casa velha, perto do Tião leiteiro, uma herança da terra. A cerca já não valia nada, e o mato só não cobria tudo porque o Alfredo mandava capinar. Deitamos na varanda caiada e cheia de teias gigantes de aranhas pequenas. Uma caixa de marimbondo pendia no canto esquerdo do espaço. Eu me sentia um milho verde naquela esteira vagabunda, naquele calor de noite enluarada. Dava pra ver tudo, os bichos assistiam ao nosso espetáculo de bichos. Deitei com ela e acordei com a manhã me sacudindo para abrir o armazém, já que o Alfredo chegava bem mais tarde que eu. Eu tinha de limpar o depósito e abaixar o toldo do armarinho da Marilene.

Desde aquele dia Alfredo passou a me amolar quase que diariamente para eu dar atenção a vampira desembestada, e eu ignorava aquilo, é claro. Pensava em qualquer dia levantar da cadeira, esmagar a cabeça do Alfredo e a da Marilene, pegar o trem e ir embora.

sexta-feira, 13 de março de 2009

peça

cansei de escrever
e escrevo mais nada
tudo foi conto de fada
que amanheceu.


quem dera eu nessa
tinhoso feito mula
maneiro como jóia
pudesse cumprir promessa.


é o mesmo que pregar peça em senhora.
quem me disse que seria assim?
uma vida por uma linha, a saliva na palavra
e agora ter que mover, sentir
plantar e colher a lavra?

quarta-feira, 11 de março de 2009

upsters

quando convidado acima
não subo bala perdida ou aéreo
falo sério quando digo:
quero subir numa rima!
sincopada em nuvens
escalada de mistério,
trovoada quando madura.
levo jura de amor
à vida
que deixo no térreo sem dor.

furta-cor

antes desse fica
vem cá embora
sabendo que melhor seria
sair fora

diga-se de passagem
perdeste bonde e bagagem
na viagem do amor.

aproveitando o ensejo
é amor que lhe desejo
com sabor de furta-cor.

e da flor me reservo
mesmo que seja bobagem
a levar somente odor.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

sombreiro

esse papo bobo
de quem escreve e diz não, não quero
é puro esmero em sair do baixo clero
do verso nas bocas das ruas, só que ao inverso
ir parar em enciclopédias em couro
ou seletas dos melhores poetas do século.
eu quero o que tiver direito
dinheiro, mulher e sombreiro
palmas e prêmios em ouro
antes que algum tubérculo me engasgue a fala
eu morra duro e mandando tudo às favas
e acabe estampado em camisas modernas da lapa.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

lero-lero

falei tudo na poesia
agora me remorsa a prosa
que cobra ciúmes e elegias
e debocha de versos e trovas

quem diria que um dia
essa mulher gritaria
por conversa dengosa
essa mina manhosa
me cerca por vias
nunca vistas na vida
fica meu lápis na fossa
assim que vai embora
nem beijo-despedida-brecha
ao fechar a porta.

eu que tanto queria
um lero-lero agora.

clave de sol

pega a clave de sol e decola
do nada em prol do ventos
que te beijarão o colo
e num momento
agradeça à Nossa Senhora:
estarás de volta, beijada
ao solo.

sábado, 17 de janeiro de 2009

cedo

parto no caminho
nasço cedo
sem vela ou ladainha
nem coragem nem medo
só um som do pixinguinha
e um cigarro no dedo

meu amor

meu amor
pra falar de você
eu pensei numa flor
eu pensei numa fruta
me tomou um calor
eu pensei até na lua
mas quando lembrei do seu jeito
ensaiei um olhar
e bolei um trejeito
eu pensei até no mar
mas quando lembrei da sua cor
olhei pro espelho
eu até pensei no azul
mas me vi no vermelho
quero que saiba, deixa eu dizer
não há peito que caiba
meu amor por você

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

aqui

estou aqui
pro que for
se não der
nem um pio
de dor.

domingo, 4 de janeiro de 2009

lágrima

a lágrima, no chão
se fingiu de gota
mas não choveu do céu
e sim do coração.

ninguém assistiu
de estrelas a queda
a água da nuvem branca
esvaziou sentimento, sortiu vapor.
em solidariedade à lágrima
fez-se chuva e calor.