quinta-feira, 28 de maio de 2009

rosa

posa todo prosa
um colibri
próximo à rosa
que colori

sem ter medo

eu já disse à esse peito tóxico:
valente morre cedo
mas entumesça amores
escolha a dedo seus temores
sem ter medo.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Marilene

Nunca topei muito com Marilene, não gostava do jeito dela. E o pior é que a criatura costurou amizade com Alfredo, filho do dono do armazém onde eu trabalhava. Ao lado ficava o armarinho dela, e tudo era infestado de ratos.

Todo dia dava conta de minhas tarefas, que incluíam uma conversa desnecessária com Marilene, em assuntos que ela sempre sabia mais do que eu. Eu não sabia nada, mas ali ninguém sabia de nada. Sendo assim eu falava pelos cotovelos sobre o que lia nos jornais, e até aí mais nada também. Mas a infeliz sempre me interrompia com um ar debochado de correção, cuspindo uma frase de efeito. Um arrufo. Eu sentia vontade de lascar um tabefe na testa dela, mas claro que não chegava às vias de fato. Alfredo era esquisito, rapaz recatado que fora criado por ali, no mato. Dias de bom humor e dias de pirraça, fricote, silêncio com alguns, principalmente com quem chegava da cidade. Direcionava sua birra para alguém e mandava às favas do seu jeito. Um dia chegou me chegou, eu suado do trabalho que acabara de fazer - varrer o depósito - e abriu falácia:

- Faz assim não Raimundo. A menina tem carinho por você tonto, larga mão da cachaça, da fuzarca, abre teu olho pra ela.

Mas não se fala assim não, tanto que a cipoada voltou rápido:

- Vá para o diabo! Que mulher? Eu não tenho mulher, não quero problema.

- Olhe, a Marilene não vai te aporrinhar, vai te dar amor, vai te dar atenção, uma boa moça... Tempo passa rapaz! Gosto dela. Ela tem lá os seus trinta e poucos anos, mas isso não atrapalha o sentimento ora...

Eu disse que Alfredo era meio estranho. Era dado às falas em inglês, dizia ter feito curso em Juiz de Fora, com certificado e tudo, que ficava pendurado em seu quarto de décadas atrás. Um frascário! Eu me segurava para não desembestar em risada ali mesmo, na cara gorda dele. Ele possuía uns cacoetes como erguer as sobrancelhas para indicar que estava concentrado, e explodia sozinho em risadas quando contava alguma coisa engraçada, na cabeça estúpida dele.

- Ela é um demônio!

- O que é isso, tá vendo só, seu cavalo, você não vale nada... Meu pai tinha de lhe mandar para a rua, rua!

Ele sempre reagia assim quando eu rechaçava qualquer tipo de prosa naquele sentido. A Marilene não, aquele cheiro de roupa velha misturado com lavanda barata e forte não dava. Ela ficava a tarde inteira a saracotear naquele salão de tábuas corridas do armarinho, que apesar de pequeno era bem cuidado e sortido. Linhas, agulhas, botões, rendas, bijuteria, pequenas peças de roupa e presentes. Toda tarde eu tinha de ir até o armarinho e abaixar o toldo para que o sol não comesse a madeira encerada pela manhã, conforme um dia me ordenou um Alfredo histérico. Ela ficava sempre com aquele sorriso senil no rosto, como que a esperar alguma gracinha minha para que pudesse desancar a falar, sem freio, com emenda de assunto em outro, sempre sorrindo como um relincho de égua, e mesmo assim muito maquiada, muito mesmo. Eu, que na maioria das vezes que estava com ela só conseguia resmungar respostas animalescamente, não conseguia nem mais olhar no rosto daquela criatura do quinto dos infernos. A saliva me acumulava nos cantos e eu me sentia uma alface. Um constrangimento muito grande, eu acreditava que todo o discurso daquela madame tinha algo de doente, de pegajoso, de ruim. Eu prefiro os jornais e suas musas de promoções.

Voltava para o armazém abafado e bebia água do filtro de barro só para ter uma ação de escape. Porque se eu retornasse com passos de lesma ela vinha atrás. Uma danação, e eu metido naquilo de besta. Ela era branca com os dentes já bem amarelados pelo cigarro que fumava, sempre do lado de fora do armarinho pra não empestear o lugar. Fumava perto da entrada do armazém e começava a ladainha. As perguntas mais idiotas eu respondia, por força da educação que recebi: meu pai era professor de um ginásio em Juiz de Fora, apesar de eu ser um bicho do mato.

A verdade é que uma vez me engracei com Marilene, tudo por conta da cachaça. Encontrei a criatura em um forró promovido pela Capela de São Felisberto, padroeiro daquele fim de mundo. Ela já meio transfigurada e eu fedendo a álcool e a saco de arroz. Fui saracotear com ela perto da banda de forró que veio da cidade, e me meti entre aquelas pernas geladas e cabeludas. Ela ria, a desequilibrada, enquanto girávamos com velocidade, perigando um tombo sensacional, aquela cabeleira pixaim mal tratada voava que uma beleza. Eu estava possuído por uma boa vontade que não era minha. Havia bebido cerca de meio litro de cachaça com o Bento, caixeiro viajante que tinha família ali. E o Alfredo assistia a tudo, num canto do salão, comendo pamonha.

Nessas ocasiões, como de praxe, eu me sentia um idiota, mas a bebida me ajudava a ficar pior. Então eu representava uma alegria, uma dança sem jeito, mas com vontade, um sanhaço. A cabeça gritava e mandava tudo girar. Groselha com cachaça ficava bonito e eu bebia, bebia. O mato verde à volta ficava iluminado, parecia uma clareira enorme o lugar. Marilene nos meus braços brutos foi minha maldição.

Eu queria era fuxicar com ela, no muito, já que por aquelas paragens mulher era material escasso. Os caipiras casavam logo cedo com primas, pareciam-se todos. O Alfredo vinha de uma família assim, todo mundo ria alto, mas era baixo. No troco daquela canalha um filho diferente e mais alto, quando muito. Tios, primas, cunhados, irmãos, todos com a mesma fuça naquele lugar que estranho era visto de longe. Minha família não era dali, fui parar ali de trem, à procura de dinheiro, qualquer que fosse, e de paz para meus demônios.

Ela me apertava e aproximava aquela boca entupida de dentes amarelos, segurado meu rosto entre as mãos de unhas vermelhas e os cabelos de fogo por todo o lugar, e eu naquele transe ordinário e estupidamente feliz. Não me dava conta de nada, rodava com ela rumo ao chão, também apertava aquela cintura de panos amarrados uns por cima dos outros, tentando desvendar o que havia por ali. Eu sabia bem e a idéia não me agradava de todo, mas o caboclo tem horas que não pensa não. Para mim Marilene não gostava muito de água, visto o jeito excessivo da maquiagem de mulher da cidade. Mas o que eu podia fazer? Era o que Deus me reservava naquele momento e eu ia desgovernado, na cachaça e em Marilene. Foi inevitável.

Alfredo se aproximou de nós com a aparência da pamonha que acabara de comer e disse que iria pegar o mato, por que já era tarde e queria acordar cedo no dia seguinte para caçar rãs. Rosnei alguma coisa e olhei para Marilene, que se despediu dele com um aceno idiota e um olhar de quem sabia o que estava fazendo. Aquilo não era muito bom, na medida em que dali por adiante Marilene estava comigo, a dama de companhia dela estava indo embora com cara de pamonha. Já não havia muita gente mesmo, e a responsabilidade de levá-la em casa era um fardo mais pesado que um saco de arroz.

Ela dançava a minha volta e por vezes perdia o equilíbrio. Aí eu a agarrava e rodava com força, no compasso do triângulo. A noite estava em iluminada, mas o mato era denso no caminho de volta. Eu já estava acostumado a andar descalço por aqueles caminhos, na maioria das vezes sozinho.

Deu a hora, levei-a para casa. Uma casa velha, perto do Tião leiteiro, uma herança da terra. A cerca já não valia nada, e o mato só não cobria tudo porque o Alfredo mandava capinar. Deitamos na varanda caiada e cheia de teias gigantes de aranhas pequenas. Uma caixa de marimbondo pendia no canto esquerdo do espaço. Eu me sentia um milho verde naquela esteira vagabunda, naquele calor de noite enluarada. Dava pra ver tudo, os bichos assistiam ao nosso espetáculo de bichos. Deitei com ela e acordei com a manhã me sacudindo para abrir o armazém, já que o Alfredo chegava bem mais tarde que eu. Eu tinha de limpar o depósito e abaixar o toldo do armarinho da Marilene.

Desde aquele dia Alfredo passou a me amolar quase que diariamente para eu dar atenção a vampira desembestada, e eu ignorava aquilo, é claro. Pensava em qualquer dia levantar da cadeira, esmagar a cabeça do Alfredo e a da Marilene, pegar o trem e ir embora.