quinta-feira, 25 de novembro de 2010

estranha noite carioca

zuniu pela cidade um grito de medo
eu acordei cedo com notícias da Penha
não há quem se contenha
não tá maneiro
não tem arrego
de tarde bandidos televisivos
fuzis em desfile
enredo sem ritmo
aqui não é brinquedo.

o Cristo mandou um temporal
como se as gotas tivessem açúcar
talvez para molhar a nuca
do carioca em fuga
do que pode estar na curva
na rua
é cada um na sua
e o Homem lá em cima
olhando os homens de farda.
aqui não é Pasárgada.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

nublado

respiração curta
o médico ausculta
o peito por dentro
o céu por fora
tenta, luta
com ajuda do coração
evitar uma possível
nebulização

sexta-feira, 16 de julho de 2010

ensaios

por vezes se precipitam, os verbos cadeia abaixo
feliz comunhão de corpos espaciais entre si
e não nos sapatos, mas nas meias me encaixo
nos anjos que vi, em todos os meus ensaios

em maio, multiplicam-se as favelas modernas
eu, velho moço, quase morro de remorso
rimo palavras, versos troços em bocas estranhas
toda aura que cria luz de prata sombria me guia
minha memória, e toda glória a graça aranha

aqui na rua deserta, da praça infinita
onde poetas me falam uma mensagem secreta
onde vivo acima daquilo que me espera
onde canto alto, já que antes não pudera
a lua beira a estrela cheia
me esperando escura, linda e inteira
não nos sapatos, mas dentro das meias.

tempoesia

para nivelar amores e bactérias no ambiente
devo comer minha poesia em decomposição
premeditar o breque, truquecaminho à frente
atravessar a floresta e achar o não

hoje não é tempoesia
agora vigora tempo do macaco gordo cujo galho não quebra
mendigos globalizados gritam o furo do papo, que trepa
por sobre astrolábios que antes nos guiavam
como patetopoetas da vertigem em amor à lua

o receptáculo da gozada é tão palavra

que vocábulos agem como guardas da deusa nua
esse oráculo gramatical fechado e virgem.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

versinho

meu verso hoje é amor
antes foi sorte
ontem foi dor
e hoje morre
de morrer de amor.

meu verso agora é tudo
antes foi nada
ontem foi mudo
hoje fala
mas falar não é tudo.

meu verso agora é segredo
antes foi vida
ontem foi medo
hoje é ida
de acordar bem cedo.

meu verso agora é cor
antes foi trote
ontem foi dor
e hoje é sorte
de morrer de amor.

conceito

exalo um conceito estreito, um beijo: realejo
lúmen do lúpulo da cerveja que me servem de bandeja
já, aqui e acolá - onde a razão não puder chegar
coisa de iaiá, bicho do mato
adjetivo que vislumbro no ato, feio e exato
que seja.

sábado, 10 de julho de 2010

aquarela

pintor que pintou um quadro azul com esmero no amarelo
depois disso ele se achou nela, dela, bela
o que nada era
nem bem riso nem bem fera
risco riscado a giz em um muro qualquer
no Rio de Janeiro.


corre um palavrão corriqueiro em cima de um coqueiro
nessa transa que faço só dentro do banheiro
vermelho e amarelo - nada lilás espero
porque não declaro nada

num curto tempo
num curto beijo
num curto vício
de espaço.

é quando paro então ao teu lado
cantando rima blue meio branca que guardo
prece pura pingo dágua de pensamento
que antes me refletia, mas na manhã já era
minha cara dura que a tudo via, até a rima boa que se ia
pra mui longe
para fora da bacia.

fina feia flor e feliz essa nossa aquarela.

sarro

acha que é brinquedo?
quem dera fosse
a poesia é um beijo
dizendo vem cá beijar
realejo com tua sorte no bico do papagaio
cartas marcadas do baralho
palhas de um velho balaio
quem dera eu sem isso
não tombar ante essa foice
deitar no sono dos amantes
sem a chama que corrói minha sorte
tira meu porte e sono
edifício de muitos andares
não largo esse estandarte
foda-se que não seja arte
arde o transe e depois o cigarro:
essa poesia me tira sarro.

roberto piva

roberto piva
pifou tua máquina
eu sigo na ativa
até quando a vida me der no saco.
aí armo um barraco
na despedida.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

sniper

a saudade, quando criança
parecia só mais um desenho
mas agora homem feito
chega numa música do cassiano
pela janela, enche meus olhos de remela
e água
entope o nariz
faz buscar foto
apertar peito,
olhar pro céu.

o quarto arrumado vira escarcéu
a cabeça não pára de tirar fatos
em porta retratos enquadrados
pelo tempo, pelo amor, pela minha idade.
ah!, que saudade.

só a cidade me olha
a lua talvez
mas que de uma vez
essa visita cesse
acabe!
suma da guanabara, suba pra marte
vá embora pela janela
avoar soluços
me trazer uns lenços

até que outra canção
mire de novo
esse triste coração.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

destarte

não posso quebrar cabeça
nem queimar a mufa
minha cuca é uma estufa
com lâmpada acoplada e acesa
que mantém mente presa
à sanidade, à saudade
meu único passaporte
para a tal humanidade.

domingo, 6 de junho de 2010

palíndromo

essa moça agrada tanto
tem nos dedos um encanto
e um nome tão palíndromo
que de unhas escarlate
é perfeito arremate
trejeito com muito jeito
de uma onda que me bate
junto a uma tattoo de fada
que na madrugada tarde
vira manto e divindade
cobrindo todo o meu santo
fechando todo o meu corpo
me deixando à vontade.

no mais é só detalhe:
afinal com essa moça
a alma é o que vale.

mundo verde

nesse mundo verde
uma certeza
tudo é da natureza
mas então socorro!
ela mata
eu morro

sexta-feira, 4 de junho de 2010

biblioteca

vou com folhas na mão
à biblioteca nacional
registrar meu planeta:
jogar a letra
viajar de trombeta
dar um papo nos poetas
que em verdade são putas
proxenetas e lapários
boêmios, freiras ao contrário
melhor se fossem
somente imaginário.
mas não
desço a mão no verso
e até que provem o contrário
isso tem nexo
sexo e tutano
para o gozo humano.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

surtei

surtei
escrevi elas paredes
subi pelas escadas
quantas almas penadas
tenho que driblar
pra achar uma alada

domingo, 16 de maio de 2010

cosongo*

tava em santa teresa
ouvindo songoro cosongo
de repente um grito
estrondo
um amor prensado
mocorongo
se desfez na seda
da minha camisa.
a brisa santa
abriu a bica, saliva
uma pombra
branca
ciscou um ponto
de amor na minha vida.
*Songoro Cosongo é uma banda formada por músicos do Brasil, Venezuela, Colômbia, Chile e Argentina, residentes no Rio e tocadores do que eles chamam PsicoTropikalMusic: http://www.songorocosongo.com.br/

temporais

contei que estava triste à minha janela.
ela tossiu temporais
e me manteve nela.

esteta

poeta, deixe de ser esteta
cai de boca na teta
rompa com o capeta
e fique mais alerta

sexta-feira, 26 de março de 2010

gaivota*

esse texto aqui
vai pra uma senhora
que o tempo namora
e com ele sorri
cuja trajetória agora
é a despedida de irmãos
netos
bisnetos
sobrinhos
e um único filho
que com carinho
narram sua história.

na sabedoria de vida
dessa mineira carioca
que saiu cedo da toca
meu jeito se escora.

vai vó, vai virar gaivota
obrigado por me fazer homem
que na saudade chora.

* Aracy Rezende Chagas, a Dona Aracy, se despediu hoje de manhã e foi tratar dos assuntos do céu e das estrelas. Vó, eu te amo.

bora

bora em frente
é hora
de sermos mais gente
nas rodas
agora
vamos logo
ora
noutras bossas
essa vida é a cores
prenhe de presença
vê-se nas flores.

a existência de verdade
é o que vigora.

quarta-feira, 24 de março de 2010

pros anjos

agora sem mantos
sigo aos prantos
rumo ao vento
dos encontros
depois de tantos bandos
tombos
santos
anos
ainda sou jovem
pros anjos

terça-feira, 9 de março de 2010

leva e traz (RJ/SP)

esse poema assim
saiu meio são
não sei se bom
se serve
pra refrão
que desentoa
névoa fina garoa
que chova de novo em são paulo
já que o rio de janeiro
é calor e nada mais.
esse poema leva e traz.

jeito

se te causo conforto
é que o forro é de amor
se te marco o passo
é só pra dançar junto
se te piso no calo
foi sem querer
sem saber
qual é o compasso.

não é caso de doutor
mas de jeito
e tesão.

sei não
sou só um menino
com um caderno na mão.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

locutor

o que eu quero mesmo
é trampar em rádio station
quando da programação noturna
chorar meus amores
ouvindo temptations

sábado, 9 de janeiro de 2010

baba-baby

não fervilho bem às claras
a barba amarra as falas
pela língua excitadas
para lhe meter palavra.

não enxugo minha baba
que respinga pela sala
e encharca nossas marcas
como fosse território.
no morro da tua ala
eu ardo um foguetório.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

desvantagem

na fuzarca logo cedo
sou fuleiro que dá medo
num buraco caibo certo
nunca esqueço o começo
de uma existência em esquina
que dispensa endereço.

mas mereço nessa vida
toda sorte desatino
já que desde bem menino
não desenvolvi apreço
pelo amor e seus tropeços.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

diletante

ser assim
mói
ser assado
rói
não ser não dá.
será o fim
já?