sexta-feira, 16 de julho de 2010

ensaios

por vezes se precipitam, os verbos cadeia abaixo
feliz comunhão de corpos espaciais entre si
e não nos sapatos, mas nas meias me encaixo
nos anjos que vi, em todos os meus ensaios

em maio, multiplicam-se as favelas modernas
eu, velho moço, quase morro de remorso
rimo palavras, versos troços em bocas estranhas
toda aura que cria luz de prata sombria me guia
minha memória, e toda glória a graça aranha

aqui na rua deserta, da praça infinita
onde poetas me falam uma mensagem secreta
onde vivo acima daquilo que me espera
onde canto alto, já que antes não pudera
a lua beira a estrela cheia
me esperando escura, linda e inteira
não nos sapatos, mas dentro das meias.

tempoesia

para nivelar amores e bactérias no ambiente
devo comer minha poesia em decomposição
premeditar o breque, truquecaminho à frente
atravessar a floresta e achar o não

hoje não é tempoesia
agora vigora tempo do macaco gordo cujo galho não quebra
mendigos globalizados gritam o furo do papo, que trepa
por sobre astrolábios que antes nos guiavam
como patetopoetas da vertigem em amor à lua

o receptáculo da gozada é tão palavra

que vocábulos agem como guardas da deusa nua
esse oráculo gramatical fechado e virgem.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

versinho

meu verso hoje é amor
antes foi sorte
ontem foi dor
e hoje morre
de morrer de amor.

meu verso agora é tudo
antes foi nada
ontem foi mudo
hoje fala
mas falar não é tudo.

meu verso agora é segredo
antes foi vida
ontem foi medo
hoje é ida
de acordar bem cedo.

meu verso agora é cor
antes foi trote
ontem foi dor
e hoje é sorte
de morrer de amor.

conceito

exalo um conceito estreito, um beijo: realejo
lúmen do lúpulo da cerveja que me servem de bandeja
já, aqui e acolá - onde a razão não puder chegar
coisa de iaiá, bicho do mato
adjetivo que vislumbro no ato, feio e exato
que seja.

sábado, 10 de julho de 2010

aquarela

pintor que pintou um quadro azul com esmero no amarelo
depois disso ele se achou nela, dela, bela
o que nada era
nem bem riso nem bem fera
risco riscado a giz em um muro qualquer
no Rio de Janeiro.


corre um palavrão corriqueiro em cima de um coqueiro
nessa transa que faço só dentro do banheiro
vermelho e amarelo - nada lilás espero
porque não declaro nada

num curto tempo
num curto beijo
num curto vício
de espaço.

é quando paro então ao teu lado
cantando rima blue meio branca que guardo
prece pura pingo dágua de pensamento
que antes me refletia, mas na manhã já era
minha cara dura que a tudo via, até a rima boa que se ia
pra mui longe
para fora da bacia.

fina feia flor e feliz essa nossa aquarela.

sarro

acha que é brinquedo?
quem dera fosse
a poesia é um beijo
dizendo vem cá beijar
realejo com tua sorte no bico do papagaio
cartas marcadas do baralho
palhas de um velho balaio
quem dera eu sem isso
não tombar ante essa foice
deitar no sono dos amantes
sem a chama que corrói minha sorte
tira meu porte e sono
edifício de muitos andares
não largo esse estandarte
foda-se que não seja arte
arde o transe e depois o cigarro:
essa poesia me tira sarro.

roberto piva

roberto piva
pifou tua máquina
eu sigo na ativa
até quando a vida me der no saco.
aí armo um barraco
na despedida.