quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

inumano

vou tentar nessa noite
tudo que não escrevi no ano
mas como fazer, como é que é?
é inumano:
como saber quem eu era ontem
se malandro
ou mané?
já que meu jeito
peito, cuca e fé
nadam na maré
e no vento:
a memória do chão seria pra mim
o último argumento.

sigo portanto
portando parangolé
caminhando contra o vento
com bagunça no cabelo
e foguete no pé
distraído vencendo
atento documento
do passar do tempo.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

cabedal

manoel foi pro céu
beleza, legal
sorte eu de ficar aqui de verdade
já que ele deixou cabedal
pra mesmo no frio, no vazio
estender um varal
de saciedade.

pássaro


manoel de barros

perdi um guia
ganhei um rio
agora ele me brilha
transcorre,
tranquilo.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Alfredo e seus discos

A cena musical brasileira tem recebido, nos últimos tempos, talentos que surpreendem pela idade e pela qualidade do trabalho que apresentam. No campo específico da MPB e do samba nem se fala.
Bobagem elencá-los aqui. É possível que você se lembre de algum novo artista que lhe chamou a atenção, seja pelo estilo, pela inovação ou mesmo pela bela figura.
Tem muita gente boa por aí.

Um destes artistas é Alfredo Del Penho. Em entrevista à este jornalista, Del Penho falou sobre o lançamento de seus primeiros dois álbuns, via financiamento coletivo: um deles é Pra Essa Gente Boa, disco instrumental dedicado às pessoas com quem trabalhou, como Paulinho da Viola, Paulão 7 Cordas e Maurício Carrilho, além de participações de Joyce e Zé Renato. O outro é Samba Sujo, disco de intérprete que passeia por partido alto, samba de breque, de terreiro e samba-choro, em composições dele em parceria com Délcio Carvalho e Rodrigo Alzuguir, Pedro Holanda e Rubinho Jacobina. Ele próprio explica melhor aqui: http://benfeitoria.com/alfredodelpenho.

Alfredo Del Penho foi um dos idealizadores do Concurso de Marchinhas da Fundição Progresso, realizado todo ano no Rio de Janeiro, com participações de artistas de todo o Brasil. Além disso, é um grande pesquisador musical, entre outras funções. O Dicionário Ricardo Cravo Albim da Música Popular Brasileira dedica verbete ao trabalho dele: http://www.dicionariompb.com.br/alfredo-del-penho/biografia.

A quantas anda o trabalho de lançamento dos seus discos solo, via financiamento coletivo? 
Há muitos anos tenho vontade de gravar meus discos. Comecei tocando violão, e o choro e a música instrumental sempre foram muito presentes em minha vida. Muitas das músicas que faço são instrumentais, e normalmente faço dedicada a algum amigo com quem toquei, troquei e aprendi. O disco Pra Essa Gente Boa tem músicas dedicadas a Maurício Carrilho, Moacyr Santos, Joana Queiroz, Paulinho da Viola e Paulino Dias, entre outros. E os gêneros são influenciados por eles, seja no choro, na valsa, no ijexá, etc. O disco de samba reúne os diversos subgêneros do samba, como samba choro, partido alto, samba sincopado, etc. E a ideia é fazer um disco gravado com os músicos tocando juntos, depois de ensaios, o que não é muito comum hoje. Em geral os músicos conhecem a música que vão gravar durante a própria sessão de gravação.

Como foi a seleção de material para o álbum de intérprete? Houve algum tipo de linha condutora que amarrou as escolhas?
A diversidade do repertório, o tema variado entre as músicas, as músicas que me sinto bem cantando e o fato de as músicas não serem conhecidas ou não terem muitas regravações são algumas diretrizes da escolha. Tem sambas inéditos meus ou de outros e sambas que serão regravados, mas que não são muito conhecidos.

Como você vê a cena musical hoje em dia, com o advento de novas tecnologias e com a internet como ferramenta de divulgação?
Acho que tem muita gente boa compondo e cantando e que a internet facilita o acesso e a formação de grupos que têm afinidade com um determinado tipo de música. Isso facilita e impulsiona a divulgação.

Você começou sua carreira na música no bar Candongueiro, em Niterói? Me fale um pouco sobre seu início como artista.
Comecei a vida musical nos bares e serestas de Niterói, no Orquídea, no bar Campeão, e era frequentador assíduo do Candongueiro. Depois, fui abraçado pela família Mendes, dos donos do Candongueiro, e tocávamos muito, mas ainda não trabalhava com eles. Era informal. Comecei a trabalhar depois com o grupo Unha de Gato, também em Niterói, e com o Gallotti, no Rio.

Gostaria que falasse um pouco do seu trabalho como pesquisador, diretor, etc.
Esses trabalhos são uma parte grande da minha dedicação hoje. Tenho feito a direção musical de algumas peças, como Deixa Clarear (sobre Clara Nunes) e Desalinho. Também produzi alguns discos, como o Arco do Tempo, de Soraya Ravenle, e O Samba Informal, de Mauro Duarte, de Cristina Buarque, e Samba de Fato. Com a pesquisa, trabalho muito em consultorias pra novelas e espetáculos de teatro musical.

Você foi o diretor musical do espetáculo Ciro Monteiro, realizado nos teatros do Sesi-RJ e do Sesc Pompeia-SP. O que achou da experiência?
A experiência foi ótima, como normalmente são as experiências nos Sesc de todo o Brasil. Já toquei no Sesc São Carlos, Pinheiros, Belenzinho, Vila Mariana, Pompeia, Copacabana, São João de Meriti, na Escola Sesc, enfim, muitas unidades e muitas vezes. Sempre achei uma instituição fundamental na divulgação da arte da gente.

Me fale um pouco de sua relação com o Festival de Marchinhas da Fundição Progresso...
É um trabalho que me dá muita alegria esse ano vamos para o décimo festival e estou presente desde o primeiro. Hoje trabalho como apresentador, cantor e jurado e sempre me divirto muito!

Uma curiosidade: já recebeu algum pedido esquisito em show ou coisa do tipo? 
Acho que o pedido mais esquisito que tive foi pra cantar uma música do Pavarotti na roda de samba. Uma senhora ficou pedindo insistentemente. Infelizmente, não tive como atender!

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

permita

se for pra escrever
por dentro de você
escolha as rimas
esconda-as à mercê da sorte grande
de ferver o próprio sangue
a correr feito escola de samba
um grito do ipiranga
de efeito bumerangue

permita
que eu invada teu bunker
se for pra escrever
por dentro de você.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

brotou

quase sem querer
vi que já brotou
mais um bem me quer
no meu coração
por essa mulher
venha o que vier
quero seu querer
ser o melhor homem
que o sol quiser
somente o ser
que mais a amou.


imenso

por mais que pareça tenso
ralo
talo
ou denso
é só pensamento
imerso em incenso, lágrima e lenço. 

fresta

ornada de falésias
vestida de fresta
por entre duas pernas
uma festa. 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

abecedário

na boca e nos dentes
nos detalhes da saliva
mando pelo ares, viva!
o abecedário.

só falo por fôlegos e sustos

gosto e odor
quem sabe, nesse momento
essa brisa seja amor.  

dengo

sendo sono
seja lento
traga sonho
com meu dengo.

velha guanabara

linda lua rara
nesse frio de mentira
onde a maresia mia
o gato cala 
e arranha arrepio
das ruas e encruzas
melodias crio
embaixo das blusas
sinas no cio
passeio público
em traje fino.

antes amada Guanabara
hoje amigo Rio.

flauta de mamão

meus genes de terra
poças d'água de manhã
olhando Nanã
caem no caule 
do pé de mamão
viram flauta de criança
que segura cigarra na mão
só de arte. 

a bem da verdade
enquanto carne
espero virar tarde. 

pacífico

um amor terminado à beira-mar
assustou o oceano que, 
pacífico na imprecisão,
sem saber se aquilo era onda
ressaca ou ilusão
pagou pra ver:
pediu à areia
a paciência do grão
pra entender.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

suassuna

suassuna
sinto muito
pela sina sua
assine a última brochura 
e siga pro alto em rima. 

teu rondó nessa vida
bela obra apregoa
suassuna
na moral, de boa
seu amor armorial
armou belezas no mundo.

ó viramundo, revele ou assuma
para esse auto compadecido
que, agora que chegou à lua,
estrelou, do céu querido,
virou bruma. 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

feriado

é tanta homenagem
foto de santo, coelho
reza pra quebranto 
malandragem agulha de alguns, quase nada 
fé verdadeira de tantos
miremo-nos no espelho moçada 
de sorte que meu santo, me desculpa
todo dia pra mim é de alvorada 
e de luta, e de paz 
no mais, minha cor é o vermelho 
respeito com calibragem 
as prendas e todas as verdades
mas sem alarde, sem incomodar Marte: 
ouço Pixinguinha, rezo
e só quero chocolate.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

cariocas versão mil grau

cariocas justiceiros
cariocas são da copa
cariocas são dos blocos
cariocas mijam nas praças,
trabalham de saia 
e usam isopor na São Salvador.

cariocas estão na praia
onde derretem corpos
cariocas sentam na mureta da Urca
e postam foto do copo.

com xis na língua e sol na testa
o carioca protesta
condena o preço da festa 
em prol da maciota.

na cobertura ou na lajota
cariocas se preparam 
com reza, água e sal
destroem a cidade 
e se perdem sem a perimetral.

celacanto provoca pororoca*


esse andar incerto
só quando você perto
me permito maremotos,
discreto.
celacanto nenhum é tão esperto. 


*Em homenagem à frase "celacanto provoca maremoto", retirada do National Kid pelo jornalista Carlos Alberto Teixeira e jogada nos muros da Guanabara nos 70. Ah, os 70.

quarta-feira, 16 de julho de 2014


almoço


rito de passagem



viva e pronto.


nublado


bola de gude


aniversário


sexta


jah bless


por meio de

por intermediários, entre detalhes
mando pelos ares o abecedário.
só falo agora por fôlegos,
gosto, odor e mares 
e quem sabe, nesse momento, 
o amor seja uma lufada de vento.

aniversário

talvez meu maior presente
seja eu inteiro
longe das 12 badaladas
do ponteiro.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Copa

como estar animado
se corto um samba dobrado
numa cidade em cacos? 

alto lá transeunte
abaixo as pontes
salvem os tapumes
e vamos pra Copa!

respire até junho para poder cerrar o punho 
de amarelo, de frente pra TV que, como nos anos 70
aliena e ameniza
quase brisa nas dunas da Gal
     pra você torcer.    

outonal

na sombra, ao relento
olhando pro céu
no teto do pensamento
dizem que vivo de vento
e que o inverno do meu tempo*
de cartola, bem vestido
sopra assobio bonito
causa até calafrio.

e se maio desfaz calor por amor ao fim de tarde 
inverno no Rio é contraste
tremendo escarcéu
de polvilho e vento
beira de praia, marola -
lenço afro
num cabelo de mola.  

* O inverno do meu tempo é uma música de Cartola      

terça-feira, 13 de maio de 2014

pinta&borda

a vida é de voltas, ir e vir:
dia a gente pinta
outro a gente borda.
e quando transborda
batemos botas,
cantamos para subir.


soul glo

james brown não foi enterrado
gostaria de ter seus sapatos
e a capa pra proteger
meu penteado.

mito

um homem muito ouviu e tudo escreveu.
teve acesso irrestrito
a doces e detritos
livros e ritos
aos mortos e aos vivos.

tudo lhe foi relatado, tudo lhe foi dito.

narrou sussurros e gritos
amor de toda cor,
ódio de todo tipo
quase virou um mito.

mas quando pediu um minuto de atenção
ninguém lhe deu ouvidos.

soltou a verdade aos ventos
e o mundo soltou um gemido
mandaram-lhe para longe, bem longe


terminou sozinho e maldito.  

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

copos dixie

uma coisa chamada poupa-copo diz:
use copos dixie.
prefiro dixieland
em meus ouvidos
tocado por uma big band.

ora poupa-copo, me poupe
não me venha com balangandãs:
deixe-me ir mesmo com sede
para Nova Orleans.

everest

o bebedouro do trabalho é everest
quem ninguém conteste
sua brancura de neve
e a frieza com a qual ele trata
quem bebe. 

cariocas versão mil grau


cariocas justiceiros
cariocas são da copa
cariocas são dos blocos
cariocas mijam nas praças,
trabalham de saia
e usam isopor na São Salvador.

cariocas estão na praia

onde derretem corpos
cariocas sentam na mureta da Urca
e postam foto do copo.

com xis na língua e sol na testa

o carioca protesta
condena o preço da festa
em prol da maciota.

na cobertura ou na lajota

cariocas se preparam 
com reza, água e sal
destroem a cidade 
e se perdem sem a perimetral.

erro de continuidade (ou Santiago Ilídio Andrade, cinegrafista)


morreu todavia
nem soube a que veio
nem dos acercas 
do seu passeio.